ANTROPOLOGIA DO CUIDADO
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A idéia da possibilidade de criar uma Antropologia do Cuidado partiu de minha primeira apresentação acadêmica sobre os povos indígenas do Brasil e na qual fiz uma exploração bibliográfica sobre as formas de resistência indígena à escravidão, à divisão territorial do Brasil, à desqualificação e à tentativa de destruição dos valores étnicos que os distingue, em suma, às estratégias sistemáticas de expatriação, expropriação e extrativismo dos ecossistemas vivos, incluindo-se neles os humanos, em território nacional.
Os movimentos seculares de resistência indígena no Brasil são predecessores e, hoje integrantes, do que se institui como movimento pela justiça ambiental na Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA), nascida no Colóquio Internacional sobre Justiça, Trabalho e Cidadania, realizado em Niterói – Rio de Janeiro entre 24 e 27 de setembro de 2001 e cujo Manifesto de lançamento foi apresentado no Fórum Social Mundial de Porto Alegre em 2002.
De imediato, pois, esclareço que a Antropologia do Cuidado articula-se com a Ecologia Política, com o pensamento ecossocial a ser sistematizado em campo específico por mim denominado Ecossociologia e com os princípios da RBJA.
Conquanto não restrito aos povos indígenas, a partir do estudo desses povos brasileiros encontro uma seqüência e recorrência de criação e de manutenção de condições e situações alteradas de vida desde 1500 e vigentes no século XXI, que não podem ser negligenciadas quando se quer estudar a própria condição e situação humana na sociedade brasileira: e os povos indígenas servem de referência e contra-referência daquela criação e manutenção, desencadeadas pelas relações interétnicas.
O respeito à realidade dos fatos e à cultura nacional quase nunca foi cultivado no Brasil pela instituição da história vigiada, da historiografia mistificada, da cultura censurada, recusante, estagnante e retardante, das idéias e dispositivos fora de lugar, dos subalternismos cognitivo-historiográfico-cultural.
Aos quarenta e quatro anos de idade revejo os livros de história e historiografia do Brasil e, quase sempre, realizo uma inversão dos discursos registrados que me possibilita entender as chamadas história dos vencidos e a história dos vencedores: os conquistadores são quase sempre saqueadores, bandidos e ladrões transformados em mocinhos civilizadores. Lembro-me dos inúmeros filmes assistidos na infância e na adolescência aonde a minha impressão cognitiva era a de que o Estado não indígena e as suas forças bélicas assassinava famílias e indivíduos, estuprava crianças e mulheres, saqueava lares, roubava terras e destruía ecossistemas para erguerem logo em seguida uma igreja ou capela, um hospital ou misericórdia, uma escolinha e um comércio: as multidiversas comunidades de pessoas, classificadas vicariamente de selvagens e primitivas, eram alvos do que eu, em idade adolescente, interpretava como processo bestializador da civilização. E os livros de história colocavam aquelas comunidades, às vezes resistentes e às vezes destruídas ou dominadas, como ameaça e obstáculo a uma suposta civilização de assassinos, brutos, covardes e mentirosos.
Portanto, vivenciei o fato de que a história no Brasil é vigiada porque distorcida e mistificada; a sensação de vigilância contra o fato crescia em meu próprio corpo porque vivi infância, adolescência e primeira juventude dentro do regime militar.
E, por isso, os conceitos de história vigiada, de mistificação historiográfica, de cultura recusante – cultura censurada - cultura retardante – cultura estagnante, de idéias fora do lugar e de subalternismos cognitivos-historiográficos-culturais incomodaram-me durante toda a minha vida profissional porque neles identificava os determinantes e os condicionantes instituídos tanto da condição e da situação humana no Brasil quanto colocavam várias profissões e profissionais, seus saberes e práticas, na condição de dispositivos fora de lugar; nesse último caso, a Pedagogia e seu instrumento –a Educação-, a Saúde, a Política, o Estado brasileiro, os estudos da Filosofia, as várias Escolas de Ciência, enfim, todos os sistemas culturais precisam ser revistos, o que, aliás, já vem sendo realizado em alguns pontuais Institutos de cultura acadêmica do país.
A idéia de que aceitamos nos últimos quinhentos anos uma cultura de não cuidado reflete o conjunto dos conceitos de história vigiada, mistificação historiográfica, cultura recusante, cultura censurada, cultura retardante, cultura estagnante, idéias fora do lugar, subalternismo cognitivo, subalternismo historiográfico, subalternismo cultural, profissões e profissionais funcionando como dispositivos fora do lugar, além do conceito de violência histórica caracterizadora da condição e situação humana no Brasil -um moinho de gentes e criatório. a que denomino moeção e gastação de corpos.
Hoje, o meu conceito de cultura de não cuidado nasce de tudo quanto testemunhei na infância, na juventude e na vida adulta, além do estudo independente de todos aqueles autores também testemunhas vivenciais de momentos históricos de instituições, de saberes e de práticas permanentes de não cuidado.
E, porque a escola formal nunca foi a minha fonte ou a minha companheira nesses estudos e testemunhos, defendo a necessidade vital para o Brasil de revisão dos saberes e das práticas educacionais, da Política, do Estado e do governo, das Instituições em geral, sobretudo porque no atual estado democrático e de direito o discurso da Lei e das Políticas Públicas é de participação comunitária e controle social.
E é exatamente em nome da participação comunitária e do controle social na educação, na política, no Estado, no governo e na saúde que precisamos rever modos de se construir o processo histórico brasileiro do qual os seus construtores sempre foram sistematicamente alijados como sujeitos da história, apesar de suas resistências seculares à condição de objetos de dominação.
Sem ser uma estrita re-exposição de datas e fatos pontuais, o trabalho sobre as resistências indígenas sugeria um novo tipo de apreciação e chamamento dos fatos históricos do Brasil pela centralidade das ações indígenas construindo, modificando e reconstruindo o processo histórico nacional e europeu: limitando-me ao século XVI, fiz uma releitura crítica de três momentos, cujos reflexos estão vigentes no século XXI.
O primeiro momento histórico, entre 1500 e 1549, falava do encontro litorâneo dos povos Tupinikim com portugueses à guerra indígena contra a divisão territorial do Brasil pela destruição do projeto português de capitanias hereditárias: o problema fundiário dos sem-terras, sem-teto, sem-emprego no século XXI, inclusive a questão da Amazônia Legal, é a revivência sem solução de continuidade dessa luta contra a transformação do Brasil em lotes e pastos privados de extrativismo, expatriação e expropriação de ecossistemas vivos, incluindo-se neles os humanos. Dentre todas as possíveis formas de não cuidado desses três eixos interconexos de violência histórica –raiz e plataforma de todas as demais e possíveis violências vigentes e emergentes no século XXI- sobressai o não cuidado com a terra pelos povos não indígenas e seus modelos destrutivos de desenvolvimento técnico econômico científico.
O segundo momento histórico, de 1549 a 1567, revisitava as Malocas de Culto ou Santidades, tidas como forças indígenas de resistência religiosa contra o jesuitismo, até a formação e o desfecho trágico da Confederação dos Tamoio, tida como força indígena de resistência política: se a história européia conheceu Sinagogas e Igrejas para expressão religiosa, as Cruzadas e a Inquisição para perseguição religiosa, a Reforma Protestante e a Contra-Reforma como movimentos de resistência religiosa, o Brasil conheceu primeiramente as Santidades indígenas como locais de resistência étnico-cultural e só mais tarde os Terreiros afro-brasileiros.
O terceiro momento histórico, de 1567 a 1599, fazia um inventário crítico e uma classificação das migrações indígenas, instituídas como forças indígenas de resistência econômico-geográfica, até um novo acordo de paz com Poti, o Grande Líder dos povos Potiguar –acordo mais uma vez não cumprido pelos portugueses.
Com o estudo das Resistências, iniciei uma ininterrupta investigação sobre Civilização Indígena, aproximando-me da obra de Darcy Ribeiro, revendo toda a história e historiografia nacional disponíveis em linguagem escrita em letra impressa, aprofundando-me nos saberes de Antropologia Indígena, Antropologia da Educação e Antropologia Histórica: o estudo sobre a antropologia, a arte, a pedagogia, a educação e a história indígena tornou-se uma prática cotidiana. Nesse campo de estudos, descobri uma fonte sobre a arte indígena de cuidado de si, da vida e do outro, antecipatória e realizadora de todas as contemporâneas declarações e esforços internacionais para uma nova lógica de desenvolvimento, nova ética, nova pedagogia: ecodesenvolvimento, ética do cuidado, ecopedagogia, ecocidadania, ecoeconomia, consciência e responsabilidade social, consciência responsabilidade sanitária, consciência justiça e responsabilidade ambiental são alguns dos novos conceitos com os quais identificava a sua realização na história milenar dos povos indígenas. Desde então, os indícios de que estava diante de uma milenar e comunitária Civilização do Cuidado tornaram-se cada vez mais evidentes.
O estudo da Arte Indígena de Cuidado levou-me a prever a construção de áreas de saber sobre a Arte de Cuidado e, detendo-me nesta utopia, vi a emergência do campo epistêmico Ciência do Cuidado, de subcampos e de novos conceitos básicos e estratégicos tais como etnocuidado, hermenêutica do cuidado, biocuidado, estética do cuidado.
A construção do campo, de subcampos, de áreas e de novos conceitos parte de duas constatações: os fundamentos, os conceitos, os referenciais e os instrumentos da Enfermagem Moderna são absolutamente inadequados ao mundo histórico da Arte de Cuidado no Brasil; uma ressignificação e recontextualização da Enfermagem Moderna exige o seu próprio fim, a construção de uma Nova Enfermagem ou Enfermagem Pós-Moderna e uma ciência que a anteceda, abarque e ultrapasse –a Ciência do Cuidado.
O material do campo e dos subcampos previstos estavam na História Antiga, Colonial e Contemporânea do Brasil, tendo como construtores e representantes os povos indígenas –a primeira matriz pluriétnica e racial formadora do povo brasileiro e que, no século XXI e após séculos de resistência, afirma-se como Paradigma Civilizatório de Cuidado.
E por que os povos indígenas e não qualquer outro povo? A resposta está no fato de que desconheço outro povo que forma e desenvolve, do nascimento à morte, uma realidade histórico-sócio-humana segundo os princípios de absoluta: consciência e responsabilidade social, consciência e responsabilidade comunitária, consciência e responsabilidade ecossanitária, ética de cuidado com todos os ecossistemas vivos, memória e dignidade étnica, convivência solidária, vontade de beleza e de perfeição em toda cultura material a serviço da memória e da dignidade étnica, vontade de saber expressa nos sistemáticos e minuciosos saberes etnobotânicos-etnozoológicos-etnofarmacológicos aprendidos desde a mais tenra idade, celebração sacropolítica do cotidiano da vida e da morte, consciência e responsabilidade moral formadoras de um senso ético de glória heróica e heroísmo glorioso mantenedores de coesão social-política-étnica, respeito e dignidade à infância e à velhice, consciência e uso da terra como um bem moral-comunitário e não como território de propriedade privada, criação de riquezas e bens de subsistência promotores da riqueza e do bem-estar comunitário, consciência e responsabilidade com o corpo tido como fonte e instrumento saudável de vida e de conhecimento. E tudo isso instituído como princípio sociopolítico de formação e de desenvolvimento da pessoa em suas comunidades étnicas.
Não se trata de nenhuma visão idílica, de saudosismo, de anacronismo ou de instituir discriminação étnica, mas de realidade histórica vivida: a civilização indígena é a mostração de outro paradigma –e paradigma vivo- de desenvolvimento, de vida social, de vida política, de formação de pessoas, de vida saudável, contraposta ao modelo civilizatório falido e vigente nos últimos quinhentos anos.
A organização sociopolítica das sociedades indígenas viveu –e vive- um modelo de sociedade e de pessoas aonde não existe exclusão social, não existem desigualdades e iniqüidades sociais, não existem mecanismos de destruição da cidadania dos membros de uma etnia, não existe uso vicário nem destrutivo dos ecossistemas ambientais, os líderes religiosos políticos comunitários são eleitos por demonstração de serviço social prestado ao bem de todos e bravura ética, monitorados e avaliados permanentemente por toda a comunidade étnica. Ou seja, todos os megaobjetivos que o Estado Brasileiro quer alcançar já foram alcançados milenarmente pela civilização indígena e têm sido sistematicamente destruídos nos últimos quinhentos anos: e, por isso, aquela civilização é um Paradigma conceitual, estratégico e operacional para as sociedades não indígenas que elaboram objetivos, diretrizes e metas, planejam programas, atividades e projetos para superarem as conseqüências da destruição sistemática de condições e situações de vida saudável a que se entregaram por um modelo sociopolítico insustentável, desde a história de Portugal no Brasil até a proclamação da República sem construção de república por ausência de comunidade e de governo republicanos.
A identificação e a sistematização do Paradigma Indígena de Civilização de Cuidado são a formulação de uma tese inaugurante de um novo campo epistêmico ao mesmo tempo dentro de uma Nova Enfermagem e fora da Enfermagem Moderna: por isso, inicialmente procurei na Enfermagem fontes de estudo e pesquisa sobre a Arte Indígena de Cuidado e as poucas linhas encontradas falavam erroneamente de período e povo pré-históricos e de práticas mágico-religiosas segundo transliteração dos preconceitos da história da medicina e de sua institucionalização.
E isto porque a Enfermagem Moderna no Brasil foi instituída e institucionalizada como serviço suplementar e subordinado à instituição e institucionalização dos saberes e das práticas médico-hospitalares: o vínculo da Enfermagem Moderna com a Saúde Pública é uma alegoria; não é lenda, não é fábula, não é parábola nem mito.
Alegoria é uma ficção representativa de um objeto para criar a idéia de um outro;
mito é expressão real da condição e situação sociopolítica de um povo, em momentos históricos determinados, tão histórico e real quanto os sonhos.
Vencendo a lacuna de estudos da Enfermagem Moderna sobre a Arte de Cuidado e isso diante da alegoria discursiva de que cuidado é a essência e a razão de ser da enfermagem, apresentei uma primeira sistematização referencial para estudo das várias expressões socio-político-culturais da Arte Indígena de Cuidado: arte de educar, arte de partejar, arte de controle da natalidade, arte de conviver, arte da vida conjugal, arte da vida comunitária, arte da celebração e da festa, arte da beleza masculina, arte da ginástica, arte da higiene corporal, arte de alimentar-se, arte de cuidado com os mortos, arte de habitar, arte e ciência do autocuidado, arte de cuidado com o corpo saudável, arte e ciência de cuidado com o ambiente das águas, das matas, das terras e do ar.
Por tais estudos evidenciei que, se a Arte de Cuidado ainda é uma grande desconhecida para a Enfermagem Moderna, a Arte Indígena de Cuidado interpretada como paradigma civilizatório de cuidado é ainda saber obscuro para aquela mesma Enfermagem.
No campo mais amplo da Arte de Cuidado desconheço estudos locorregionais na enfermagem brasileira esclarecedores daquela arte na região nordeste, absolutamente indígena antes da colonização, e recomposta na interetnicidade entre índigenas, lusitanos, negros (etnias banto, sudaneses, iorubás); na região sudeste, de igual absolutamente indígena antes da colonização, e recomposta na interetnicidade entre indígenas (fundamentalmente da etnia tupi), lusitanos, negros (etnias sudaneses e angolana); na região sul, também absolutamente indígena antes da colonização, e recomposta na interetnicidade entre indígenas (fundamentalmente da etnia guarani), hispânicos, eslavos, alemães e italianos; na região norte, absolutamente indígena antes da colonização, e recomposta na interetnicidade entre indígenas e nordestinos; na região centro-oeste, quase absolutamente indígena antes do governo JK é de colonização brasileira; particularmente na cidade de São Paulo de Piratininga, fundada por indígenas e jesuítas, recebendo forte contingente japonês após 1908.
Tais desconhecimentos e até negligência intelectual mantidos pela enfermagem moderna diante de tão vasto campo de estudos somente serão superados no campo de uma Nova Enfermagem e de uma Ciência do Cuidado que a anteceda, a inclua e a ultrapasse.