CULTURA MASCULINA
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1. CONSTRUÇÃO DE CONCEITO CIENTÍFICO
Ao se falar em ciência precisamos dar rigor aos nossos questionamentos -o que, infelizmente não é feito com tanto rigor no Brasil.
Dar um conceito não é emitir um palpite, uma opinião: .
Aprendi com Wilhelm Guillermo Dilthey (1833-1911), o pai do Historismo Alemão, como se cria e se define um conceito:
A explicitação de Dilthey sobre o modo de se formar e se definir um conceito é a base para a tentativa de formar e definir o conceito que se quer definir, com os seguintes passos:
- escolher ou criar a palavra designativa do que se quer conceituar;
- esclarecer a origem ou a história da palavra escolhida;
- determinar a origem ou a história do conceito escolhido;
- escolher ou identificar que fatos da realidade histórico-social-humana serão traduzíveis do nome ou da expressão geral que se escolheu;
- discriminar os diversos tipos decorrentes da palavra escolhida, gerados pelas vivências e concepções de pessoas e comunidades de pessoas sobre aquela palavra. Tais tipos são as abreviaturas do fato;
- separar as abreviaturas distorcivas ou falsas do fato que, porventura, tenham sido ou possam ser anexadas ao nome ou expressão geral escolhida; tais abreviaturas serão consideradas relações isoladas ou arbitrárias entre vivências de fato-realidades de fato-abreviaturas de fato;
- compor traços distintivos essenciais e traços distintivos suficientes, expressivos do conceito escolhido ou criado. Essa composição permite a definição do conceito, onde objeto epistemológico, fundamentos teóricos, metodológicos, epistemológicos, históricos, filosóficos, técnico-instrumentais e campo de ação estarão delimitados.
Não é fácil mas fazer ciência não é fácil.
(DILTHEY, Wilhelm. La esencia de la Filosofia.2a. ed. en español. Buenos Aires: Losada. 1952)
2. ARQUÉTIPO DA INDIVIDUAÇÃO MASCULINA
Em 1999 publiquei trabalho a partir de pesquisas empíricas acerca não do animus e da anima, mas do ANIMI -pouco referenciado, apesar de citado por JUNG -o criador da Psicologia Analítica. Estou envolvido desde então nessa pesquisa, sobretudo porque, até o ano de 2000,trabalhava no campo da especialidade de Enfermagem Hospitalar e em Clínica Cirúrgica cuidava de homens em pré e pós-operatórios.
Gostaria de trocar idéias e, quem sabe, compor um trabalho conjunto: em verdade, desenvolvendo o assunto (e sendo tanto quanto possível fiel a JUNG, sem os preconceitos culturais ou históricos,) parece-me que o arquétipo da individuação masculina é o ANIMI.
Em meus estudos e ouvindo homens em inúmeras situações de vida, inclusive as de doença e fragilidade corpóreas, aprofundei questões sobre o arquétipo Animi tendo-o como meta para a individuação: tais questões relacionam-se com a visão e vivência masculina da Ética, da Estética, da Arte, da Ciência, da Filosofia, da Política,incluindo-se as dos homens na Enfermagem e no exercício do cuidado de Enfermagem
2.1.TIPOS MASCULINOS
Os tipos masculinos que desfilam, sobretudo, nas novelas da televisão expressam homens afundados ou desnorteados com as projeções de sua anima: não são tipos masculinos integrados.
Nas academias masculinas de ginástica, do mesmo modo, pululam os tipos masculinos limitados à identificação com a anima. Essa identificação produz os pseudo-homens tão conhecidos por todos e, particular e empiricamente por mim porque durante algum tempo em minha vida também participei dos enganos dos homens nas academias de (in)cultura física.
Lastimavelmente, a maior revista do mundo destinada ao público masculino e usada por adolescentes é o caminho exato para não se construir masculinidade: serve quase que exclusivamente para a prática masculina da masturbação e uma prática reduzida e doentia que impede ao homem conhecer o seu próprio corpo, incluindo-se nesse corpo o pênis (que não é "ele"), além de desenvolver uma imaginação doentia sobre o mundo desejante das mulheres.
Quem veja, com um certo senso analítico-crítico, uma mesa de bar numa roda de homens reconhecerá um trágico desfile de animas, corroendo a possibilidade dos homens se tornarem homens.É o que James Wyly discute em sua obra "A busca fálica: Príapo e a inflação masculina".
Quem busque na obra "Feminino e masculino" de Rose Marie Muraro e Leonardo Boff algo saudável sobre sexualidade masculina também se decepcionará profundamente: a teoria de ambos (uma mulher e um padre), por mais respeitáveis e cultos sejam, está afundada nos pressupostos teóricos de Freud a partir de seus problemas sexuais que em sua vida não pôde ou não soube resolver ou sequer conscientizar-se deles.
A desorientação sexual da infância e da adolescência, nos lares desfeitos ou malfeitos e nas escolas,é da mesma forma flagrante e assustadora. Evidenciada nas formas de violência e de agressividade ou nos comportamentos supostamente civilizados e estereotipados, a degradação da infância e da adolescência masculinas no Brasil é sistematicamente cultivada por pais e mestres.
2.2.MITOLOGIA AFRICANA E O ARQUÉTIPO ANIMI
Na Mitologia Africana encontramos exemplos para integração do arquétipo da individuação masculina.
-Ogum significa "guerra" e é deus do combate e dos caminhos porque após a manifestação de Exu é ele quem abre caminhos para os orixás; sem Ogum nenhuma atividade útil na cidade ou no campo pode ser aproveitada, ainda quando realizada.
O combate de Ogum é pelo desenvolvimento do homem que deve submeter a natureza bruta do metal para produzir.
O orixá Ogum talvez seja o deus masculino cujas características são mais facilmente deformadas pela concepção patriarcal da vida e pelo senso comum reducionista de muitos de seus devotos: por isso, uma das várias distorções é reverenciá-lo como protetor dos militares e dos combatentes de guerra, patrono da tecnologia: mais exatamente poderia ser o deus que combate pela transformação da bruteza militar e bélica em civilidade, urbanidade.
A ligação de Ogum com o mundo militar e de soldados já é um sincretismo da umbanda com o catolicismo: um soldado de nome Jorge teria mantido sua fé em Jesus Cristo diante do imperador romano e por isso foi torturado e morto. A figura arquetípica do dragão, morto por São Jorge, seria a representação do imperador sendo vencido pela fé do soldado.
As virtudes arquetípicas de Ogum são distorcidas e confundidas por seus devotos com intransigência, frieza, instabilidade emocional, enfurecimento, impulsividade, violência, rigidez militar: na verdade, são projeções e transferências do caráter dos homens devotos sobre o símbolo civilizatório transformador de Ogum.
Ogum não expressa características arquetípicas de um deus violento, sanguinário, promotor de guerras, combates, batalhas e chacinas.
A idade dos metais ou a idade do ferro em Hesíodo é caracterizada como idade da Justiça e da Violência, representando tanto um equilíbrio entre o bem e o mal quanto uma época de desordem, de anarquia, de império da força, das doenças. Essa idade se correlaciona com o castigo de Zeus contra os homens enviando-lhes Pandora e sua caixa de dores porque Prometeu lhes revelou o fogo.
Na mitologia grega e na obra de Hesíodo, a idade do ferro tem a terra e a mulher como fundamentos da destruição (e, também da fecundidade).
Quase nenhuma ligação mítica existe entre as características de Ogum e a idade do ferro ou, ainda, com o deus da guerra Ares, este sim produtor de carnificinas e batalhas a ponto de ser cognominado o deus das lágrimas.
A simbologia de Ogum está no ato de fundir o ferro para criar instrumentos úteis para o homem ter uma vida menos árdua: aliás, tais instrumentos têm mais a significação e o papel de CORTAR más e indesejáveis influências ou presenças.
Os instrumentos de ferro fundido são todos símbolos fálicos: a espada de ferro é o símbolo fálico de Ogum, embora facas, facões e lanças sejam a ele relacionados.
Revelador dos segredos do ferro para os homens, Ogum pode ser símbolo da transformação da energia psíquica em energia fálica reveladora da potência e da força fálicas imanentes e necessárias à formação da masculinidade fálica.
A noção arquetípica fundamental em Ogum é a de força humana masculina mediada por instrumento de ferro fundido para transformação da natureza.
Provavelmente, o mito de Ogum indique mais o processo de individuação ainda não completado do que a própria integração do arquétipo animi na corpopsique masculina.
Relevante destacar que, enquanto para os iorubanos Ogum é deus dos caminhos ou mais propriamente deus que abre os caminhos das estradas das casas dos terreiros, o seu irmão mais velho Exu é o deus das encruzilhadas. Nenhum deles tem a responsabilidade de dirigir caminhos ou apontar direções nas encruzilhadas das incertezas e das dúvidas: Ogum, cuja cor é o azul escuro, abre todos os caminhos e Exu toma conta de todas as encruzilhadas independente das direções.
Há interessantes aproximações arquetípicas entre as trajetórias e memórias de corpo dos homens objetivadas na mitologia iorubana de Ogum e aquelas objetivadas na mitologia grega e na romana nas quais, respectivamente, Hermes Trimegisto e Mercúrio são deuses das estradas, guardiães dos caminhos, protetores dos viajantes, mensageiros das comunicações dos deuses com os homens.
2.3. LOGUM
- Logum significa "príncipe aclamado". Filho de Oxóssi e Oxum é o príncipe das matas e das caças, junto ao seu pai e rei. Logum divide o ano vivendo seis meses nas matas com o pai e alimentando-se dos produtos da caça e seis meses nas águas com a mãe e alimentando-se dos produtos da pesca. Esta divisão é vista numa abordagem redutiva como dualidade, mas expressa integração arquetípica da masculinidade e da feminilidade na corpopsique de um homem.
A integração do animi no orixá Logum está representada em sua androginia; sua cor é o azul turquesa e o dourado; o seu instrumento simbólico é, a um só tempo, o arco e flecha e o espelho (abebê).
Tanto o arco e a flecha são os símbolos por excelência do homem indígena quanto o espelho exerceu inúmeras transformações sócio-psico-econômicas na vida dos homens indígenas brasileiros.
Outros recursos naturais, tal como contemplar-se nas águas, exerciam as mesmas funções corpopsíquicas para o homem indígena como olhar-se num espelho de vidro; entretanto, este último ainda exerce lamentavelmente fascínio às comunidades indígenas que o desconhecem. E, lamentavelmente porque o homem indígena tem a experiência milenar de ver no outro homem a expressão espelhada de si mesmo, o que promove o respeito, a colegialidade, a intimidade, a reciprocidade e o conhecimento direto de um homem por outro homem, sem os artificialismos e as autofixações dos espelhos tal como os conhecemos.
Numa boate, numa academia de ginástica ou num vídeo masculino de masturbação solitária é possível fazer uma análise crítica da fascinação dos homens por espelhos, podendo-se ajuizar sobre os obstáculos e as distorções para a formação da masculinidade fálica e para o autoconhecimento do corpo masculino: é quase uma fascinação catatônica pela imagem do espelho, não raro geradora de hostilidade, competitividade, antipatia, raiva, inveja de outros homens percebidos como mais fortes, mais definidos em seus músculos. E todos esses sentimentos destrutivos e autodestrutivos responsabilizam-se pelo que hoje se tem estudado com o nome de vigorexia ou paixão neurótica pelo vigor corporal.
O incrível daquela fascinaçõo catatônica não é pela imagem corporal que pode ser vista no espelho mas pela fantasia de uma imagem corporal de um corpo que não se tem e que se quer adquirí-lo, seja através dos halteres, dos anabolizantes, das cirurgias plásticas de mudança do corpo ou de segmentos dele.
Obviamente não é o espelho responsável por tais anomalias autoperceptivas; mas, onde existe a formação de uma masculinidade não fálica aquele espelho funciona como um abismo ou uma areia movediça.
O espelho de Logum, também de sua mãe Oxum, devem ter outra função que a de uma equivocada e patriarcal estereotipia de beleza qualificada de faceira com o objetivo frívolo de despertar nos outros admiração pelo mero prazer de seduzir ou agradar pela aparência.
Um objeto arquetípico qual o espelho ou a função arquetípica das águas na reprodução da própria imagem são símbolos integradores da atitude de contemplari.
2.4. NARCISO
O maior símbolo daquela integração do arquétipo animi na personalidade de um homem é Narciso, equivocadamente interpretado com a personalidade não fálica de seus interpretadores.
Contrariamente à interpretação psicanalítica e aos conceitos equivocados de narcisismo, o professor José Herculano Pires em sua obra "O Mistério do ser ante a dor e a morte", à página 183, esclarece a significação do contemplari a si mesmo, expressa por Narciso:
"Narciso faz a descoberta de si mesmo no espelho do lago. Contempla-se aturdido com a sua própria beleza e desperta para a busca do seu destino. Esse é o momento culminante da síntese ôntica, aquele em que o onto grego se define como criatura real, completa, integrada num corpo material em que os poderes da Terra e do Céu se fundem, revelando a íntima relação de carne e espírito na facticidade do ser humano. Essa facticidade, esse fazer de poderes invisíveis e indefiníveis desprende-se do mistério das coisas e se torna realidade viva e atuante. O ser é então apenas uma criatura biológica, como todas as que o cercam, e atira-se às atividades compulsórias da vida. NARCISO é o adolescente, enamorado de si mesmo, mas a compulsão das forças vitais o leva à conquista do mundo. O ser biológico de início impreciso se transforma em ser social que se relaciona com outros seres. Na busca do desenvolvimento ontogenético transpõe as fronteiras da carne na busca das suas origens desconhecidas. Sua consciência indefinida se define nas atividades práticas da sobrevivência. Mas a lembrança de sua imagem no lago revela-lhe o arquétipo ideal que ele deve atingir, atraído pela estranha do belo. Instala-se nele o processo dialético que faz o lótus, flor do mistério, romper a superfície líquida do lago e desabrochar na terceira dimensão do ser que é a dimensão estética. NARCISO atingiu em si mesmo a síntese total da consciência estética. NARCISO venceu as etapas do seu desenvolvimento ontogenético e transformou-se no homem.
Não é mais um ser como os outros, é um homem, senhor do mundo e criador da beleza. Desse momento em diante ele não se limita a ser e viver, entra na temporalidade criadora da existência. Sabe que existe, que avança no existencial, em busca da eterna Beleza".
A cosmovisão e lucidez analítica do eminente filósofo sobre a significação arquetípica de Narciso vendo-se no lago foi reproduzida sobretudo porque sei, de antemão, o quase absoluto desconhecimento de um público mais vasto de sua obra e o esgotamento da disponibilidade da mesma para compra.
Realmente, Narciso até a adolescência está em processo de formação e de desenvolvimento do que Eugene Monick nomeia de gabarito masculino. Sua energia fálica se expande e se corporifica gradualmente, expressando uma potência fálica improstituível, o que o faz possuidor de uma masculinidade fálica singular e pessoalíssima, incorruptível, não deformada por envolvimentos afetivo-sexuais prematuros com a ninfa Eco. Ao se ver no lago, toma pleníssima consciência do homem que se fez a si mesmo, autoconsciente de sua força fálica. Sente-se aturdido por conscientizar-se plenamente da boa obra realizada por si mesmo e em si mesmo e lança-se à vivência incorrupta de sua existência.
A integração ôntica de Narciso se completa e se define na culminância do real quando se autoconscientiza, pela visão de si mesmo, de toda a extensão de sua corporalidade existencial (imagem do Self). Faz-se e percebe-se ser humano integral, sem qualquer dicotomia entre corpo e alma, carne e espírito, sexualidade e espiritualidade, sensualidade e sacralidade: é a expressão plena do arquétipo animi integrado no homem.
Na situação de jovem caçador, Narciso iniciara antes o conhecimento do mundo, descobrindo o mistério das coisas, atuando sobre a realidade circundante, desvendando os poderes invisíveis do mundo, processando todos os fatos e dados indefiníveis do cotidiano, formatando a si próprio nas atividades da vida. Vendo-se, agora, conscientizando-se de todo esse processo em e da masculinidade fálica conseqüente de que é o construtor e portador, rompe, definitivamente, com todas as superficialidades, atingindo a dimensão estética das realidades vitais, inclusas a si mesmo. Torna-se, pois, o arquétipo da síntese total da consciência superior, o "senhor do mundo", o "criador da beleza".
A flor narciso é flor amarela, curiosamente correlata à cor dourada de Logum.
O amarelo associa-se ao sol, ao ouro, ao deus romano Mercúrio e a Apolo, considerado o deus Sol e sucessor do antigo deus Hélios. As conexões com o amarelo simbolizam luz, consciência, energia, fecundidade e fertilidade, criatividade, vitalidade, virilidade no sentido de potência fálica.
Em cromoterapia, por exemplo, o amarelo é usado para tratamento das doenças do sangue e do fígado; é a fonte de alimento para o chamado chakra da Raiz Central ou plexo solar, localizado acima do ânus e abaixo da raiz das genitálias.
A cor amarela, na mitologia grega, tem como deus regente Mercúrio – um deus masculino encarnado no homem e expresso através do Falo.
A integração do arquétipo animi nos deuses masculinos Mercúrio, Narciso, Logum e Oxóssi são equivalentes.
No mito grego, Narciso é o mais belo dos belos entre todos os homens e mulheres, deuses e deusas. Essa suprema magnificência da beleza em um homem expressa o resultado supremo da integração do arquétipo animi, identificado por mim no homem indígena brasileiro.
Ainda mais um comentário ligando Logum, Narciso, Oxóssi e os homens indígenas é sobre a atividade de caçador.
A caça é símbolo milenar multicultural da atividade masculina no descobrimento do mundo das pessoas, das coisas e de si mesmo.
Exercitando a caça o homem desenvolve seu poder de visão, penetrando os segredos dos animais, dos caminhos, das suas várias direções: a caça identifica o homem com a sua própria natureza animal e, ao mesmo tempo, o conscientiza da distância corpopsíquica que o separa do animal. O homem caçador percebe as dimensões de sua corporalidade, os limites de suas forças, as energias a serem desenvolvidas para que adquira habilidade e perícia na interação com o mundo circundante e que, de certa forma, o interpenetra. O contato com o seu corpo, com o corpo dos animais, com o corpo de seus companheiros de caçada, com o corpo da terra, expandem sua potência de considerare e de contemplari.
A energia fálica do homem caçador está simbolizada em Eros, em Adônis, em Narciso, em Logum, em Oxóssi e nos homens indígenas: a corpopsique com os conteúdos de um caçador retrata o homem em processo de individuação, desbravando sombras, temores e vencendo desconhecimentos.
A atividade simbólica do caçador permite ao homem tornar-se sensível e responsivo, atento e silencioso, contemplativo e respeitoso a todos os fatos e dados circundantes, sem alienar-se da realidade que o circunda. Traduz a capacidade de concentração, de disciplina para alcançar uma meta percebida como enriquecedora e valorativa na expansão de sua personalidade. Desenvolve a humildade, a consciência de sua energia fálica, o discernimento para não empregar sua potência fálica bestialmente e em caráter de aventura fugaz e castradora.
Como símbolo de caçador e na atividade mesma de caçar ou de se por em contato com a vida real, descobrindo-a em si, Narciso desenvolve criatividade, inventividade, expressividade e afetividade, resolutividade e eficiência corpopsíquica.
O ato de caçar, sobretudo para os homens indígenas, é ato de aprendizagem de todas as coisas necessárias para que o homem cresça e se desenvolva integrado com o mundo à sua volta, de forma consciente e enriquecedora: não é ato de controle, de domínio, de extermínio e sacrifício de animais, mas de autoconsciência.
Finalmente, no ato arquetípico de caçar o homem aprende a cuidar de si, a cuidar dos animais, a cuidar das matas.
3. PROSTITUIÇÃO SAGRADA MASCULINA
Nancy Qualls-Corbett estuda em "A Prostituição Sagrada: a face eterna do Feminino" os valores matriarcais de um tipo de sociedade, historicamente identificável, inclusive na Civilização Indígena Brasileira.
Feminino e feminilidade não estão limitados ao mundo de mulheres, tanto quanto masculino e masculinidade não se referem necessariamente ao mundo de homens.
Outros estudos destacam a prostituição sagrada masculina e, parafraseando Qualls-Corbett podemos falar em face eterna do masculino: os estudos de Jung sobre o deus Mercúrio, a coleção Amor e Psique da editora Paulus traz vários aspectos e análises da face eterna do masculino.
Tais estudos são subsídios para se compreender a deterioração da prostituição sagrada masculina diante da prostituição profana até a profissão dos garotos e homens de programa, comuns nos dias de hoje.
3.1.DIFERENÇAS ESTUDÁVEIS NO EXERCÍCIO DA PROSTITUIÇÃO
A prostituição sagrada é um tipo de sacerdócio ou é mesmo rito dentro do exercício do sacerdócio: o homem ou a mulher geralmente viviam em lugares consagrados a um deus ou a uma deusa e em dias específicos incorporavam a esse deus ou deusa que, entre outros ritos, praticavam o coito com aqueles ou aquelas que buscavam a intercessão divina em suas vidas. Nesse caso o coito é rito que atualiza na vida dessas pessoas a presença do deus ou da deusa.
Parece não haver relação entre a prostituição sagrada masculina e a obrigatoriedade de prostituição de escravos, presente em algumas sociedades, quais a da Mesopotâmia e do Egito.
Nem sagrada nem profana é o caso existente em algumas sociedades indígenas brasileiras aonde homens tinham por profissão aceita socialmente entregarem-se sexualmente a outros homens que os procuravam. Nesse caso, aqueles homens possuíam casa separada da aldeia para morarem e receberem outros homens.
4. CORPO INDÍGENA
O povo indígena, um povo paradigmático de cuidado, tem muito a ensinar aos cuidadores da vida, aos cuidadores de corpos exatamente porque são povos de um corpo de cuidado.
O corpo indígena é um corpo do cuidado onde arte-estesia-ética-ciência-cosmos-sociedade-política-pedagogia-terra são unos: a etnoestética, a etnolingüística, a antropologia simbólica, a antropologia histórica, a antropologia dialética o têm demonstrado permanentemente este fato, ancestral e contemporâneo. Por ser uma civilização dominantemente matriarcal, conforme registra o mitógrafo Junito de Sousa Brandão , o cotidiano indígena é de cuidado com a vida, cuidado com o corpo, cuidado com a morte, cuidado com a terra - considerada, com tudo o que existe, um desdobramento do próprio corpo do Deus verdadeiro e primeiro.
Nos últimos quatro anos, tenho estudado a expressividade do cuidado nos povos brasileiros indígenas, onde corpo-cuidado-arte-estética-ética-ciência são milenarmente unos: cuidado e corpo são uma revolução na história e no cotidiano.
As comunidades e as sociedades matriarcais são, caracteristicamente, comunidades e sociedades do corpo e do cuidado: não é por outro motivo que, nas análises de Fromm (1975) sobre a crueldade e a destrutividade humana, quanto mais o patriarcado se instala e se enraíza nas comunidades e sociedades, por volta de 4000 a 3000 antes de Cristo, mais destruidora e agressiva se tornam as instituições de guerras, genocídios e etnocídios. E é exatamente por isso que, no Brasil, a partir de 1531, os contatos interetnicos entre as comunidades matriarcais brasilianas e as patriarcais lusas geraram genocídios e etnocídios das primeiras. Apesar de não terem sido extintas e compondo a etnia estrutural em que se formou a sociedade brasileira, nenhum estudo na enfermagem existe sobre o tema – apesar de sua relevância quanto as expressões do cuidado com o corpo e sua relação com o que, hoje, é a teleologia da Ciência do cuidado: a convergência arte-ciência-filosofia-estética.
Junito de Sousa Brandão é o único pesquisador assegurador de que, no Brasil, as comunidades e sociedades indígenas ou brasilianas são dominantemente matriarcais: uma cuidadosa análise no campo da etnociência e do etnocuidado evidencia a afirmação de Junito Brandão.
Ao contrário da noção comum, matriarcado e patriarcado não é domínio de mulheres ou de homens, respectivamente, mas atenção e ênfase a valores opostos e contrapostos. Onde estes valores estão mais evidentes em suas contraposições e oposições é nas expressões de cuidado e de não cuidado, na expressividade e não expressividade do corpo: daí, a importância de estudos sobre o cuidado e não cuidado nos dois tipos de sociedades, ainda vivas na contemporaneidade brasileira, influenciando-nos e sendo por nós influenciadas.
Se, realmente, a linguagem escrita é símbolo expressivo do masculino, não é difícil entender porque os iluministas eurocêntricos chamaram de pré-históricas as comunidades e sociedades matriarcais, cuja distinção é a linguagem falada, com os seus valores étnicos expressos e fixados no corpo: hoje é fato incontestável ser o corpo indígena expressão e inscrição de linguagem – o que justifica a atenção e o cuidado com o corpo nessas comunidades. Nesse contexto de estudo, é nas comunidades e sociedades matriarcais que se encontra o que qualifico de corpoestesia ou, segundo Ribeiro (1997), vontade de beleza – fixada no extremo cuidado com o corpo pelos povos indígenas; nas comunidades e sociedades patriarcais, exemplificadas pela moeção e gastação de corpos no Brasil, desde a sua invasão e conquista por portugueses, encontra-se o que denomino de corpofobia.
O medo e o pavor de corpo – corpofobia – expressa-se, na atualidade, nas falsas atenções ao corpo e que, em verdade, são a negação do mesmo diante da compulsão em muda-lo, não permitindo a fixação ou destruindo a fixação das trajetórias e memórias da pessoa na carne humana.
Na perseguição contra a possibilidade dos povos indígenas permanecerem eles próprios e dos africanos não serem considerados pessoas configura-se a expropriação antropo-cultural, a expatriação histórico-social, o extrativismo das forças corporais. Trata-se, pois, de destruição da memória do corpo por trajetórias e memórias de sangue derramado.
Ao processo de sangramento e ressangramento de corpos, junto à digestão antropo-histórico-étnico dos povos indígenas e africanos, denomino corpofagia: a trituração, o engolimento, a digestão de corpos por extrativismo, expatriação, expropriação antropo-histórico-étnico.
Se nos últimos 500 anos de história no Brasil milhões de indígenas ou brasilianos foram reduzidos a alguns milhares, o que está vigente é uma máquina corpocida e corpofágica cujo funcionamento interessa mais à antropologia que a própria biologia: trata-se de uma máquina anti-corpo, no sentido antropo-histórico-étnico.
A compreensão analítico-crítica da corpofagia torna-se campo do saber para a microhistória antropo-étnica da tortura, da doença, dos homicídios e dos feminicídios em suas várias expressões (autocídio, infanticídio, parricídio, marricídio, genocídio, etnocídio), da violência, da crueldade, do estupro, do sadomasoquismo, dos maus tratos e abandono da pessoa idosa, ao que posso denominar de gerontocídio ou maus tratos e assassinato de pessoas idosas. Às formas homicidas e feminicidas como um todo denomino corpocídio.
As trajetórias e memórias de corpo no Brasil formam-se e desenvolvem-se, desde os últimos quinhentos séculos, no Corpocídio, na Corpofagia, na Corpofobia –conceitos representativos de memórias de não cuidado contra as expressões da Corpoestesia –conceito representativo de memórias de cuidado.
E o que é esse corpo – estético, fóbico, fágico, corpocida?
Do ponto de vista biológico comumente considera-se o corpo constituído por carne (músculos), veias, artérias, nervos, órgãos. É o organismo animal.
A carne, no homem e na mulher, apesar da comum animalidade a quaisquer animais, é além de um locus; é uma composição étnica e histórica, expressão de memória étnica.
A memória étnica da carne humana faz do corpo mais que um organismo animal; portanto, na Ciência do Cuidado, o vocábulo corpo restringe-se ao homem e à mulher como fundação do humano e síntese carne-memória étnica.
O corpo é expressão mnêmica da história formada por ele mesmo; é memória étnica da carne, escritura que faz a história, forma a comunidade, expressão e reflexão da história e comunidade escriturada por ele mesmo.
A comunidade e a sociedade não estão impressas no corpo; expressam o corpo que as criam e é por isto que comunidades, sociedades, civilizações são memórias de corpo.
O corpo é memória étnica que faz a história; não é representação da história porque, ao contrário, é expressão formadora da mesma: a história é a objetivação de memórias de corpo.
Corpo é carne-memória étnica do humano, vivo, pulsante, carne-sangue, origem e fim da história criada.