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HISTORISMO E HISTORICISMO

Angra dos Reis - RJ
Angra dos Reis - RJ

Uso a expressão Tradição historista por dois motivos.

O primeiro para acentuar a diferença entre tradição historicista e tradição historista; o segundo para acentuar as duas direções da Escola Histórica Alemã: o Historismo de Dilthey, com a publicação de sua obra Introdução às Ciências do Espírito, em 1880, até a obra de Friedrich Meinecke, Origens do Historismo; o Historismo de Guillermo Windelband e Enrique Rickert, Ranke e Johann Gustav Droysen.

Os termos historicista e historicismo foram divulgados mundialmente por Karl Popper: a "miséria do historicismo", de base naturalista e evolucionista de pensamento histórico em Carlos Marx, Osvaldo Spengler, Arnoldo Toynbee e Augusto Comte não se aplicam ao Historismo.

Contrariamente ao Historicismo e à sua miserabilidade, os termos historista, Historismo são utilizados na Alemanha e remotam ao pensamento de Johann Gottfried Herder, Guillermo Dilthey, Georg Simmel, Guillermo Windelband, Enrique Rickert.

Guillermo Dilthey é o primeiro pensador que não faz distinção entre História Filosofia Psicologia e Antropologia e, formula esta conexão criando, dentro da sua Filosofia Crítica da História, uma nova Filosofia da Vida: Filosofia da Vida no Sistema de Dilthey é a formulação primeira e una do que posteriormente foi seriado e renominado na Fenomenologia de Edmund Husserl, no Existencialismo de Martin Heidegger e de Karl Jaspers, no Holismo de John Smuts, na Teoria Geral dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy, na Teoria do Pensamento Complexo de Edgar Morin.

Filosofia da Vida é o sistema particular das Ciências do Espírito que concebe Filosofia como ciência da experiência íntima, ou seja, ciência do espírito. Para Guillermo Dilthey, a Tradição da Filosofia da Vida, com soluções de continuidade e não consensual, remonta na Antigüidade aos romanos e novos estóicos Marco Túlio Cícero (106 aC- 44 dC) e Lucio Anneo Sêneca (3-65), no século XVIII pelo escocês David Hume, Adam Smith, Jeremy Bentham (1748-1832), James Mill (1773-1836) e John Stuart Mil (1806-1873), fazendo-se representar na Alemanha por Edouard Beneke (1798-1854).

Filosofia da Vida, Filosofia Crítica da História e o Historismo de Guillermo Dilthey, expostos em bloco uno em toda a sua obra, inseminou quase todo o pensamento do final do século XIX e século XX: com nomes diferentes e outras leituras, incontáveis são os estudiosos seriadores de um ou vários conceitos do Sistema de Dilthey dentro da Tradição Filosófica da Escola Alemã.

Dilthey é o primeiro teórico das Ciências da Vida a formular uma lógica, uma epistemologia e uma metodologia autônomas para as ciências da realidade histórico-sócio-humana por ele denominadas Ciências do Espírito.

Ciências do Espírito é a expressão diltheyana para o que o mundo conhecia e distinguia como Filosofia; Historismo é originariamente a revolução cultural alemã em oposição às ideologias do Iluminismo e da Revolução Francesa.

Entre as várias versões ou desenvolvimentos parciais do Historismo de Dilthey pode-se citar:

-a Sociologia Compreensiva de Max Weber;

-a Sociologia Histórica, representada por Oswald Spengler e sua filosofia biológica da história, por Arnold Toynbee, por Pitirim Sorokin, por Alfred Weber e sua Sociologia Cultural, pela Sociologia Neopositivista em F. Stuart Chapin e Alfred L. Kroeber.

Max Weber, teórico diltheyano dos sistemas de organização externa da sociedade, dos tipos históricos e categorias hermenêuticas de Dilthey cria o conceito de tipo ideal como instrumento metodológico para a Sociologia -ciência empírica para estudo compreensivo do motivo da ação social típica.

Osvaldo Spengler e o seu conceito de estilo ou ethos de cada cultura em seus estágios e cada qual com a sua filosofia da vida é o mesmo princípio da Filosofia Histórica de Dilthey de que o espírito do tempo produz concepções de mundo ou concepções históricas e sistemas gerais ou particulares que são a expressão do ethos do povo, da sociedade, da nação de cada momento histórico

Arnold Toynbee e o seu conceito dinâmico das uniformidades das civilizações e do paradigma da transformação retraduz o princípio hermenêutico diltheyano de desenvolvimento como diferenciação e aperfeiçoamento com regulares possibilidades estudáveis de evolução, quedas, retrocessos e estagnações apesar da concepção historista ser trocada pela concepção metafísica do evolucionismo civilizatório.

Pitirim Sorokin, apesar de contaminado com a concepção evolutiva de história e de cultura, revive com o seu paradigma de transformação dos sistemas culturais teorias alemãs e diltheyanas de tipo histórico, estrutura, sistemas culturais, princípio hermenêutico da interatividade e de formação; tomando a interação intencional de dois ou mais indivíduos ou interação sociocultural como unidade analítica dos processos sociais, conceitua Sociologia como a ciência que estuda a estrutura e a dinâmica dos sistemas sociais, dos sistemas culturais e da estrutura, dos tipos, das interações e dos processos de personalidades nas personalidades em seu aspecto básico.

Alfred Weber defende: a sociologia é uma ciência cultural; a historicidade da vida; a dinamicidade da história se dá por vontade cultural; o complexo total da História é formado pelos interconexos mas diferentes processos social (manifesto na formação e organização social familiar, tribal, das nações), civilizacional (manifesto no desenvolvimento tecnológico e das ciências naturais) e cultural (manifesta-se na criação de produtos culturais exclusivos e únicos através da arte, da religião, da filosofia, em suas distintas idades culturais e conflitos culturais); os padrões culturais de organizações histórico-sociais específicas estão fixados na história dessas organizações e, por isso, criam e perpetuam o estilo cultural em seus produtos culturais que moldam homens e sociedades; a distinção entre civilização (refere-se ao conjunto das atividades humanas técnico-instrumentais) e cultura.

Próximo de alguns itens do pensamento diltheyano e contaminado pelo neopositivismo, F. Stuart Chapin concebe as instituições por modelos básicos do comportamento humano; para demonstração dessa tese utiliza-se do simbolismo gráfico, preconiza a invenção de unidades, escalas e instrumentos de medida padronizados para investigar fatos e condutas institucionais. A última fase do trabalho de Chapin volta-se para culturas de grupo, formadas a partir da força ou corrente principal de uma cultura: as culturas de grupo determinam ciclos de crescimento e declínio das nações; cada ciclo é produto de complexos de forças formados por fases ou componentes individuais da cultura (econômica, política, religiosa, intelectual); cada fase ou componente tem por si mesmo um ciclo de crescimento e de decadência; a correlação cronológica dos ciclos de várias formas culturais produz maturidade cultural.

Alfred L. Kroeber estuda o crescimento e o declínio das fases individuais da cultura, preconizando a possibilidade de florescimento de uma mesma cultura por várias vezes.
Seguindo o pensamento diltheyano de sistemas de organização externa da sociedade, um dos principais fundadores da ciência moderna da sociedade, da sociologia e da filosofia da vida econômica é Georg Simmel: diferencia Sociologia de Ciências Sociais Concretas e também de Psicologia, de Filosofia Social e de História: com os princípios hermenêuticos diltheyanos da reciprocidade, da teoria do tipo e do conceito alemão de estrutura, aprofunda-se no estudo dos diferentes tipos de relações recíprocas na sociedade ou tipos de relações sociais, formados pelos traços comuns das relações entre os indivíduos. Com tais estudos, Simmel defende que o conceito central e definidor da Sociologia e forma da(s) sociedade(s) ouformas sociais (outra expressão para tipos sociais).


1. CONCEPÇÃO HISTÓRICA

O uso que faço do vocábulo concepção, aproxima-se do sentido de processo gestatório, empregado quando a referência é ato de conceber, de gerar, de formar.

Ato e processo de formação, de geração ou de gestação, concepção evoca trajetória, caminho, curso de vida, percurso, desenvolvimento e desenrolar, no sentido mesmo de desdobramento de sucessividades não necessariamente evolutivas. Essa evocação traz a relação indissociável entre concepção e história que, por sua vez, referencia à memória, não no sentido de algo passado, mas de vivências e experiências reais e vivas, sempre presentes. Trata-se, pois, de concepção histórica.

A concepção histórica estrutura-se num processo histórico de formação – e não de construção – de conhecimentos e saberes, gerados e desenvolvidos na trajetória de vida de uma pessoa ou comunidade de pessoas. Sua característica é a de um processo de conhecer em que a pessoa (ou o pesquisador) se orienta diante do que a (o) rodeia, em relação a si mesma (o), quanto ao que pensa, sente, deseja e experiência; de igual modo, é um processo que a (o) vincula ou desvincula em relação às demais pessoas, com as quais coexiste e relaciona, influencia e é influenciada.

Concepção histórica é, pois, processo de conhecimento, de orientação, de identidade e de vinculação, formado e desenvolvido (= desenrolado) na trajetória de vida mais ou menos longa de pessoas, comunidades, povos, instituições e organizações.

Em suma, toda concepção é histórica.

Duas influências estão contidas no que entendo por concepção: Wilhelm Guillermo Dilthey (1833-1911), o pai do Historismo Alemão; e a obra de Andrè Giordan e Gérard de Vecchi, "As Origens do Saber", publicada pela Artes Médicas em 1996.

Com Guillermo Dilthey, densifiquei a concepção de formação, trajetória, história e memória; com Giordan e de Vecchi aclarou-se-me o fato de que concepções não são destruídas, produzidas nem transmitidas porque são formações históricas, pessoais, embora os seus conteúdos tenham se formado num vínculo não fragmentável da pessoa com o mundo histórico em que nasce.

2. HISTORISMO E HERMENÊUTICA

Um dos fundamentos do Historismo e da Hermenêutica enquanto ciência filosófica e metodológica é o de que os conceitos devem ser adstraídos e não abstraídos da realidade humano-sócio-histórico. Noutros termos, nenhum conceito pode ser uma criação arbitrária, formal, abstrata, mas deve originar-se da vivência –sempre histórica; por isso, todo conceito, na racionalidade hermenêutica, é conceito histórico.

A historicidade do conceito segue três formulações diltheyanas de um mesmo princípio:
-primeiro, o pensamento não pode ir além da vida;
-segundo, o eu, a inteligência, o pensamento, a razão é histórica; terceiro, a vida deve ser compreendida por si mesma.

Sendo a raiz da compreensão a raiz da vida, a transformação da experiência em conhecimento se dá mediante categorias históricas ou hermenêuticas, nascidas da própria vida e não de alguma formalidade conceitual, estabelecida a priori.

Pelos conceitos históricos da Hermenêutica e conseqüentemente do Historismo, Guillermo Dilthey explicita algumas não esgotáveis categorias históricas ou hermenêuticas para conhecer, entender, compreender e esclarecer o mundo histórico: desenvolvimento, significado, sentido, significação, estrutura, efetividade, identidade, valor, essencialidade, teleologia, temporalidade.

Tanto Aristóteles quanto Kant abstrem as suas categorias das funções lógicas primárias, presentes no pensamento tácito; portanto no aristotelismo ou no kantismo estamos diante de categorias do pensamento discursivo.

Sem negar as categorias formais ou abstratas, as Ciências Experienciais não as utilizam para conhecer, compreender, entender e esclarecer o mundo humano-sócio-histórico nem as consideram formas ou modos para transformação da experiência em conhecimento.