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HERMENÊUTICA

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Juntamente com Frederico Schleiermacher (1768-1834), Augusto Boeckh (1785-1867) e João Gustavo Droysen (1808-1886), Guillermo Dilthey representa um dos clássicos da Hermenêutica para o século XIX; pela atual explicitação teórica da Hermenêutica Filosófica com Hans-Georg Gadamer, aqueles Grandes Pensadores também são os clássicos da Hermenêutica para o século XX e XXI.

A historiografia da hermenêutica está realizada por Jean Grondin e da sua obra retomo a seguir alguns aspectos para esclarecimentos sobre a Hermenêutica enquanto ciência filosófica e, também, método de compreensão.

Há a Hermenêutica Geral ou Universal, as Hermenêuticas Especiais e as Hermenêuticas Particulares.

No campo da Hermenêutica Geral ou Ciência Filosófica do Entendimento, destacam-se as doutrinas hermenêuticas universais de João Conrado Dannhauer (1603-1666), de João Martin Chladenius (1710-1759), de Jorge Frederico Meier (1718-1777), de Frederico Schleiermacher, de Augusto Boeckh, de Gustavo Droysen e de Guillermo Dilthey. Cada um deles, defendendo a universalidade da Hermenêutica, também construíram hermenêuticas particulares.

Dannhauer, criador da palavra hermenêutica e o primeiro a utilizá-la como título de livro, defende a concepção da existência de uma hermenêutica como ciência filosófica e seus objetos particulares, apesar de vinculada à Lógica.

Chladenius, com a sua hermenêutica pedagógica, defende a hermenêutica como ramo autônomo do saber, paralelo à Lógica, e com forte acentuação pedagógica no sentido de atenção apenas à compreensão de passagens obscuras e não de todas as passagens dos textos interpretáveis; sinonimiza hermenêutica e arte da interpretação, onde interpretar é uma ação pedagógico-filosófica realizada para quem não têm conhecimentos suficientes para compreender.

Meier cria a hermenêutica semiótica defendendo a Hermenêutica como universal arte da interpretação tanto dos discursos escriturados quanto de todos os sinais ou signos, naturais e humanos.

Schleiermacher dá à hermenêutica a significação de arte da compreensão do universal mal-entendido ou equívoco, introduzindo-a no campo filosófico e fora dos limites estritamente técnicos e filológicos.
Para Schleiermacher a Hermenêutica é Filosófica e universal porque a "arte de compreender está internamente conectada com a arte de falar e com a arte de pensar"
(SCHLEIERMACHER, Friedrich D.E. Hermenêutica. 3. ed. Petrópolis: Vozes. 2001; p.15); aquela conexão faz da hermenêutica um modo, uma estrutura organizadora do próprio pensamento e do discurso para fins de compreensão e de comunicação, sobretudo porque a doutrina schleiermacheriana considera que a palavra falada é apenas a face exteriorizada do pensamento.

A Hermenêutica geral schleiermacheriana divide-se em Hermenêutica Lingüística como arte da compreensão da totalidade da linguagem e Hermenêutica Psicotécnica como arte da compreensão das expressões interiores de um indivíduo.

Para Boeckh, mestre de Guillermo Dilthey, hermenêutica é entender a Єρμηνεια "tradução do pensado para o enunciado" como expressão de um conhecimento: entendimento é o conhecimento do que já é conhecido, ou seja, re-conhecimento; portanto, estamos diante da primeira formulação de uma Hermenêutica Histórica onde a pesquisa da palavra falada ou escrita envolve a gramática, o indivíduo que enuncia pelos sinais e símbolos da comunicação, o gênero e a história.

Droysen defende a autonomia metodológica das ciências históricas diante do método científico-experimental das ciências naturais, combatendo dois desvios: o de transliterar tal método para as ciências históricas e o de considerar história como arte da narração; para isso, preconiza a necessidade de estabelecimento das leis de pesquisa e do saber histórico, estruturantes da Ciência Histórica, cujas fontes são os "testemunhos históricos" não para entender o passado mas para desenvolver a "compreensão histórica" do que desse passado ainda está nas fontes do presente.

A compreensão histórica de Droysen é Hermenêutica Investigatória não no sentido de coletar dados objetivos mas no sentido de, a partir de algum testemunho, sinal ou dado, ir em direção ao que de imediato não é dado com a meta de haver crescente e profunda consciência do "fim dos fins". Fim dos fins significa para Droysen que a História é processo de conscientização da humanidade de si mesma, onde os períodos históricos são "estágios do autoconhecimento da humanidade" (GRONDIN, 1999, p.145).

Finalmente, a Hermenêutica de Dilthey.

Guillermo Dilthey foi o primeiro filósofo e historiador das ciências e do pensamento histórico a estabelecer a hermenêutica como teoria e método das Ciências da Vida ou Ciências do Espírito.

No Sistema de Dilthey, a hermenêutica enquanto teoria constitui a Filosofia da Vida, Filosofia da Experiência ou Filosofia Histórica; enquanto método é método histórico-crítico para compreender as expressões da vivência, manifestações de vida, grandes objetividades do pensamento, o espírito objetivado. Daí, a hermenêutica de Dilthey é a formulação sistemática e a consolidação da Hermenêutica Histórica.

Crítica da razão histórica, enquanto motivo central da Filosofia Histórica e definida como a capacidade da pessoa perceber que é histórica e que a sociedade e a história são fixações ou expressões daquela historicidade, também pode ser entendida como via de acesso à compreensão hermenêutica da história e técnica para o desenrolar do método hermenêutico que não separa antropologia-história-psicologia analítico-descritiva.

Um dos atos do método hermenêutico interconexo à Filosofia Hermenêutica é a captação histórica ou objetiva e o esclarecimento das categorias hermenêuticas chamadas por Guillermo Dilthey de categorias da vida ou categorias históricas.

1. CATEGORIAS HISTÓRICAS

Categorias são tipos de relação para captar a realidade humano-sócio-histórica.

No Sistema de Dilthey para as Ciências da Vida, as categorias se dividem em formais ou materiais (abstratas) e históricas ou da vida.

As categorias formais ou materiais são: igualdade, semelhança, diferença, grau, identidade, unidade, multiplicidade, totalidade, entre outras.

As categorias históricas, da vida ou hermenêuticas são conceitos hermenêuticos centrais para as Ciências da Vida; tais conceitos significam que são inerentes à vida mesma, a serem apreendidos na análise das trajetórias e memórias de corpo. Esta apreensão não é observação passível de experimentação; ao contrário, é captação histórica não de sentidos e de significados, à moda da fenomenologia, mas do essencial e necessário expressos nos nexos finais, conexões de fim ou sistemas de uma cultura.

Dito de outra forma: a captação histórica das categorias hermenêuticas na Hermenêutica Histórica de Dilthey tem por teleologia conhecer, entender, compreender e esclarecer a estrutura ou configuração vital, tipo de conexão vital do mundo histórico.

As categorias hermenêuticas não são produto de elaboração intelectual, não são uma construção a priori, mas imanentes à própria vida, ou seja, à vida humano-socio-histórica: desenvolvimento, significado, sentido, significação, estrutura, efetividade, mesmidade, valor, essencialidade, teleologia, temporalidade, entre outras.

Desenvolvimento é processo de formação; significa diferenciação e aperfeiçoamento, nada se equiparando à noção teórica de evolução darwinista ou positivista de estágios inferiores para superiores.
Desenvolvimento na Hermenêutica Histórica de Dilthey traduz o curso da vida desenrolando-se numa conexão em que o presente está preenchido de passado, ao mesmo tempo que traz em si o futuro; não traduz evolução e progresso no sentido sociológico positivista comteano: opõe-se às “fantasias especulativas acerca de um progresso baseado em etapas cada vez mais altas” (DILTHEY, W.G. Crítica de la razón histórica. Barcelona: Península. 1986, p.237); ao contrário, desenvolvimento é o desenrolar mesmo do curso da vida com inumeráveis possibilidades de novos caminhos e direções, a partir das pressões externas sobre o sujeito (limitações externas) e dos limites de sua própria finitude e condição humana (limitações internas); nesse curso, ao contrário da ilusão de progresso e evolução, pode haver queda segundo a “base natural de crescimento, madureza e decadência vegetativa” sem realização de um significado superior, detenção em regiões inferiores da vida, avanço, retrocesso temporário, estagnação.

Significado é categoria imanente à vida, presente em toda manifestação de vida ou memória de corpo “na medida em que [...] expressa algo e como expressão assinala para algo que pertence à vida” (DILTHEY, 1986, p.230,277).

O significado traduz a
relação das partes da vida com o todo, relação que se funda no ser mesmo da vida [...] Trata-se de uma relação que nunca se completa de todo. [...] é o modo peculiar de relação que, no seio da vida, guarda suas partes com o todo. [...] A essência das relações de significado reside nas circunstâncias que, no curso do tempo [historicidade e curso da vida], encerra a configuração de uma trajetória vital sobre a base da estrutura da vida e debaixo das condições do meio (DILTHEY, 1986, p.266, 267).

Significado é correlato às categorias históricas de sentido, significação, fim, valor – interconexas, mas irredutíveis umas às outras.

A imanência das categorias hermenêuticas às atividades humanas, à vida ou mundo históricos não é algo aplicável “a priori como algo alheio a ela, mas que reside no ser mesmo da vida. [... O] sentido da vida resulta do significado (DILTHEY, 1986, p.225, 228).”

Na linguagem posterior a Dilthey de Ortega y Gasset, a história, a vida e o seu significado é sempre um gerúndio.

A relação significado e sentido estabelece-se no curso da vida, numa articulação circular de desenvolvimento: “as partes [são determinadas em sua significação pelo todo e [...] este, por sua vez, se determina cada vez mais em seu sentido à medida que se vai fixando o significado das partes” (ÍMAZ, E. El Pensamiento de Dilthey. México: Fondo de Cultura Económica. 1978, p.22).

Para Dilthey, o significado é a categoria central da vida pelo qual ela torna-se compreensível e da qual dependem todas as demais.

Apreende-se o significado em relação às trajetórias de vida passadas e, por isso, somente pela recordação pode ser captado. Essa recordação é revivência porque re-apresenta a vivência passada.

Na categoria significado apreende-se a conexão passado-futuro, existência individual existência coletiva, nas suas relações nunca totalmente completadas. Não se pode, pois, compreender o significado de vivências presentes, imediatas, exatamente porque é necessário o “fim da história” para apreender o todo das trajetórias em seus momentos diversos. Conseqüentemente, o trabalho de compreensão da categoria significado parece ser sempre historiográfico.

Cada momento é uma parte do todo que será aquele fim da história: não se pode saber o significado do momento sem o todo dos momentos nem o significado da totalidade sem a efetividade de todos os momentos.

Pode-se determinar um fim (futuro), mas não se pode determinar um significado (passado) presente, ainda que se possa fazer conjecturas de um significado provável diante de um fim estabelecido. E isto porque o significado vai se fixando pela significação dos momentos interconexos que, por sua vez, determinam os sentidos em direção ao fim.

Em suma, o significado é a configuração última de uma trajetória de vida, compreendido apenas num movimento de reflexio: esta é a suprema diferença entre a Hermenêutica Histórica e a Filosofia Histórica de Guillermo Dilthey diante da Fenomenologia.

Para o terapeuta do corpo e do cuidado, apreender o significado de trajetórias e memórias de corpo, determinadas no objetivo de uma pesquisa ou no processo de cuidar, será descobrir modos de relação, processos e forças relacionais naquelas trajetórias, descobrir modos de criação, processos e forças criativas no cuidar de si, do corpo, dos outros, da vida e da morte, presentes e distintivos nas trajetórias das pessoas e comunidades de pessoas. Nessas descobertas e criações, apreender as artes e os saberes de corpo e do cuidar determinantes e característicos será apreender motivos, metas, propósitos, interesses, desejos, valores, caminhos e direções formados e desenvolvidos para expressão daquelas artes e saberes.

Significação para Dilthey (1986, p.232) determina o “significado de uma parte para uma totalidade, surgida sobre a base do nexo efetivo”. Na Ciência do Cuidado é a significação das memórias de corpo, partes das trajetórias da pessoa e das comunidades de pessoas.
Os conceitos de significado e significação são os mesmos, posteriores a Dilthey, integrados aos conceitos de pensamento sistêmico por Ludwig von Bertalanffy e pensamento complexo por Edgar Morin.

Efetividade refere-se à efetuação da vivência. Não traduz a objetivação de um projeto, a conclusão de um objetivo distanciado pelo tempo e espaço como se fosse o efeito de uma causa.

A efetividade não é a produção ou o produto final de um processo: é a efetivação, sempre presente e total do processo: o pensamento de Dilthey, esclarecido por Ímaz (1978, p.252) acentua: “estamos sempre dentro da efetuação”.

Fácil perceber que a categoria efetividade refere-se a um caráter de presença, presente, presentação opondo-se à noção de resultado final decorrente de uma ação inicial.

Essencialidade tem por sinônimo essência, referindo-se ao que Dilthey (1986) diz constituir a medula, o decisiio, a potência elemental, o ponto central, o essencial, a raiz, o foco sobre o qual repousam o significado e o sentido histórico da vida. No Sistema de Dilthey essencialidade traduz o núcleo indestrutível, sem que haja qualquer noção metafísica de existir em mim uma substância ou natureza humana.

Em Dilthey, teleologia ou fim se refere ao estado do sujeito ou unidade de vida em direção às outras unidades de vida.

Teleologia é a categoria histórica que diferencia a ordem humano-sócio-histórica da ordem natural mecânica.
Em suma, teleologia é adequação a um fim, sem que isto signifique qualquer conceito supostamente natural e objetivo: é a relação das partes num todo determinada por um valor afetivo impulsivo realizado naquele todo.

Estrutura, do alemão Struktur, se refere à característica de totalidade, conexão ou unidade dinâmica e imanente com que se apresenta a vida humano-sócio-histórica: "A vida é um todo. Estrutura é a conexão deste todo, condicionada pelas relações reais com o mundo exterior" (ÍMAZ, 1978, p.250).

Valor no Sistema de Dilthey está pressuposto nas categorias históricas que captam a vida do ponto de vista do futuro; não é resultado de algum conceito formal, extrínseco.

Mesmidade é "a experiência mais íntima do homem acerca de si mesmo. Sobre esta mesmidade está o fato de que nos sintamos como pessoas, tenhamos caráter, pensemos e atuemos de modo consciente" (DILTHEY, 1986, p.197).

Mesmidade significa o fato de ser a mim mesmo durante toda a vida independente de todas as mudanças e transformações porque passo no processo da vida.

Temporalidade refere-se ao fato de que a vida humano-sócio-histórica tem começo e fim, se dá num espaço de tempo mais ou menos longo: o pensamento diltheyano refere-se ao fato de o que se chama realidade são momentos. A temporalidade traduz essa sucessividade conexa de momentos sempre históricos.

Em suma, a captação histórica das categorias hermenêuticas expressam o método histórico-crítico de análise hermenêutica: tais categorias, método e análise são básicas para a discussão sobre a Hermenêutica do Cuidado.

As Categorias Hermenêuticas devem ser utilizadas tanto como constructos para análise hermenêutica, seja de situações, de obras escritas ou de discursos quanto para desenvolver e esclarecer o processo de cuidado.